São oito horas. Os meus olhos abrem-se timidamente, vejo que os pássaros são pardais. Dois, talvez um casal; olham-me com ar desconfiado e avaliador. Estico os braços chamando a preguiça, voam os pardais, coloco-me de pé num ápice. Vou à janela, respiro o ar do mar, está com um cheiro diferente. Um cheiro a último dia em Miramar. Um misto de tristeza, alegria, sensações vagas, milagres oníricos apoderam-se de minha mente.
Depois do banho visto-me sem reparar muito bem se estou bonita, se estou feia e salto as escadas para apressadamente engolir alguma quantidade de leite e pão com qualquer coisa embutida. Pego numa maça à pressa, saio porta fora: ver o mar e a areia e o passadiço de madeira...sobre ele caminho, sobre ele tenho a sensação de voar por uma praia que é tão minha como minhas mãos. Mexo na areia, sinto o seu cheiro e mergulho no mar salgado e limpo da manhã. Aperta-se-me um frio pouco saudável, tão agradável quanto violento.
Regresso a casa com o espírito reformado, reformulado e, acima de tudo, com uma injecção de almas em mim. Coisas tão simples que fazem emergir tão complexos sentimentos. Tantas são as horas que vivemos alienados do belo, do autêntico do natural...tantos são os momentos nos quais não compreendemos o mundo. O céu, a terra, o mar, as montanhas, o deserto, a floresta...
Amanhã estarei em Paris. 5 dias mais de uma vida. Férias terminam dia 25, depois uma vida não melhor, não pior que a que tenho. A mesma vida, rotinas diferentes. Não concebo a minha existência a momentos demasiadamente iguais.
MS - Excertos: Notas de férias.
20-8-2011
