Limbo de um tempo em nuvem, luz forte e branca; forma de escuridão ardente e dolorosa.

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Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2011

Somos sombras de quem somos.

O primeiro poema que li em Buenos Aires:


Neste mundo em que esquecemos

Somos sombras de quem somos,

E os gestos reais que temos

No outro em que, almas, vivemos,

São aqui esgares e assomos.

Tudo é nocturno e confuso

No que entre nós aqui há.

Projecções, fumo difuso

Do lume que brilha ocluso

Ao olhar que a vida dá.

Mas um ou outro, um momento.

Olhando bem, pode ver

Na sombra e seu movimento

Qual no outro mundo é o intento

Do gesto que o faz viver.

E então encontra o sentido

Do que aqui está a esgarar,

E volve ao seu corpo ido,

Imaginado e entendido,

A intuição de um olhar.

Sombra do corpo saudosa,

Mentira que sente o laço

Que a liga à maravilhosa

Verdade que a lança, ansiosa,

No chão do tempo e do espaço.


Fernando Pessoa, 1934

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